DESENVOLVIMENTO EMOCIONAL E SOCIAL

Amar não é suficiente: o que os seus filhos precisam mesmo de si

Quando o amor deixa de ser apenas um sentimento e se transforma em presença, escuta e conexão

Escrito por Dr. Hélder Ferreira, Pediatra e Diretor Clínico da Clínica Pediátrica Coronado Publicado em 24 de Fevereiro de 2026 • Revisto em 24 de Fevereiro de 2026

Quando falamos da relação entre pais e filhos, é comum tratar vínculo e amor como sinónimos, como se fossem a mesma coisa expressa com palavras diferentes. A verdade é que não são e afeta a forma como se vive esta relação.

O amor é um sentimento. Surge muitas vezes de forma quase imediata, ainda antes do nascimento, alimentado pela expectativa, pela imaginação, pelo desejo de proteger. É intenso, subjetivo, e na maioria das vezes incondicional. Um pai ou uma mãe pode amar profundamente o seu filho e, ainda assim, não saber como estar presente da forma que ele precisa.

O vínculo, por sua vez, é uma construção. É o fio invisível que se tece dia após dia, através da presença, da consistência, da capacidade de responder às necessidades emocionais da criança. O psicólogo John Bowlby, criador da Teoria da Vinculação, mostrou-nos que o vínculo seguro não nasce do amor em si, mas da experiência repetida de uma figura de referência que acolhe, que acalma, que está lá — mesmo quando é difícil.

"Isto significa que é possível amar muito e vincular pouco. Um pai ausente por razões de trabalho, uma mãe emocionalmente sobrecarregada, pais que amam mas que não conseguem regular as próprias emoções — todos eles podem amar os filhos genuinamente e, ao mesmo tempo, deixar lacunas no vínculo."

E são essas lacunas que mais tarde se traduzem em dificuldades de autoestima, de confiança, de relação com os outros. O vínculo não exige perfeição. Exige presença real, reparação quando algo corre mal, e uma disponibilidade emocional que vai muito além do sustento material ou da oferta de oportunidades. É na qualidade das trocas quotidianas — no olhar, no toque, na escuta — que a criança aprende se o mundo é seguro e se ela é digna de ser amada.

Para que haja um vínculo seguro precisamos de:

  • Responder atempadamente às necessidades dos nossos filhos (sejam elas físicas ou emocionais);
  • Ajudá-los a autorregularem as suas emoções (através do exemplo e orientação consciente);
  • Criar regras e definir limites (são uma forma de proteção. Protegê-los da angústia de tomar decisões sozinho quando não tem maturidade para o fazer e lidar com um sentimento de vazio e sensação de abandono);
  • Qualidade e quantidade de tempo dedicado à relação (como é que uma relação de intimidade se cria e desenvolve quando temos pouco tempo com o outro? Resposta: não se desenvolve. Quando e como se vivenciam desafios/conflitos e se superam em conjunto fortalecendo laços? Resposta: quando dedicamos a nossa atenção e disponibilidade ao outro.);
  • Fazer a criança se sentir aceite e vista (reconhecer a criança como um ser com necessidades legítimas e não apenas com comportamentos a corrigir, alguém com uma personalidade em desenvolvimento e evidenciar esses traços. É importante mostrar-lhe que tem um lugar na família, seja porque é o cómico da casa ou o criativo, a sua individualidade é apreciada. Quando se sente vista, sente que “está no radar”, a protegem, lhe dão possibilidade de escolha (dentro de um limite) e cresce em autonomia.

Esta escolha de olhar para o filho com curiosidade em vez de julgamento, de regular primeiro as emoções do adulto antes de exigir regulação à criança, de investir na relação como a base de toda a educação… É exatamente aqui que vínculo e amor se encontram: quando o amor deixa de ser apenas um sentimento guardado no coração e se transforma em presença, em escuta, em conexão — aí nasce um vínculo que a criança carregará para a vida toda!

Autoria: Dr.ª Rute Ferreira, Psicóloga