DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR E PREVENÇÃO

Sono na Adolescência

Escrito por Dr. Hélder Ferreira, Pediatra e Diretor Clínico da Clínica Pediátrica Coronado Publicado em 2025-01-22 • Revisto em 2025-01-22

A adolescência é uma fase de grandes transformações: físicas, emocionais, cognitivas e sociais. Mas há uma mudança menos visível – embora profundamente impactante – que marca esta etapa: a alteração do ritmo biológico do sono. Os jovens passam a adormecer mais tarde…, mas continuam a ter de acordar cedo. Resultado? Uma epidemia silenciosa de privação crónica de sono, com consequências reais para a saúde, o rendimento escolar e o bem-estar mental. Neste artigo, exploramos as necessidades de sono dos adolescentes, os motivos pelos quais dormem pouco, o impacto da privação de sono e como podemos promover hábitos mais saudáveis e realistas, mesmo em contexto escolar exigente e num mundo hiperconectado.

Sono na Adolescência: Quanto é o suficiente?

De acordo com a Academia Americana de Medicina do Sono:

  • Adolescentes dos 10 aos 18 anos precisam de 8 a 10 horas de sono por noite para um funcionamento ideal.
  • A maioria dorme menos de 7 horas, especialmente nos dias de escola.
  • A privação de sono torna-se mais grave à medida que a adolescência avança, com muitos jovens a dormirem apenas 5 a 6 horas por noite.

Este défice não é benigno: está associado a maior risco de:

  • Depressão e ansiedade
  • Défice de atenção e alterações de humor
  • Aumento de acidentes (domésticos, rodoviários)
  • Obesidade, baixa imunidade, alterações hormonais

Por que os adolescentes dormem tão pouco?

a) Mudança fisiológica do ritmo circadiano

Com a puberdade, o relógio biológico sofre um “atraso natural”. A produção de melatonina (hormona do sono) só aumenta por volta das 23h ou mais. Isto significa que o adolescente só sente sono verdadeiramente tarde – não por teimosia, mas por alteração neurobiológica.

b) Pressão escolar e carga de estudo

O horário escolar começa cedo, mas o volume de tarefas e testes obriga muitos jovens a estudar até tarde, reduzindo o tempo de sono efetivo.

c) Uso de ecrãs e redes sociais

A luz azul dos ecrãs inibe a melatonina, dificultando o adormecer. Além disso, o conteúdo consumido online é altamente estimulante. Muitos adolescentes passam horas em redes sociais ou videojogos… à custa do sono.

d) Vida social e necessidade de autonomia

Sair à noite, conversar com amigos, ver séries – tudo isto ganha peso na adolescência. A cama deixa de ser prioridade.

e) Falta de valorização do sono

Dormir é muitas vezes visto como perda de tempo. Poucos adolescentes associam o sono a melhor rendimento escolar, humor, saúde da pele, forma física ou regulação emocional.

As Consequências da Privação de Sono

A privação crónica de sono não é apenas “estar mais cansado”:

  • A nível cognitivo: memória fraca, concentração reduzida, dificuldade em tomar decisões.
  • A nível emocional: irritabilidade, baixa tolerância à frustração, risco aumentado de depressão.
  • A nível físico: alterações hormonais, aumento de peso, menor resistência imunológica.
  • A nível social: menor controlo impulsivo, conflitos familiares, isolamento.
  • A nível académico: menor rendimento, maior risco de reprovações, desmotivação.

Adolescentes privados de sono são mais propensos a acidentes de viação, automutilação, uso de substâncias e comportamentos de risco.

Estratégias para uma Higiene do Sono Realista e Saudável

a) Negociar horários consistentes

  • Estabelecer uma hora de deitar realista (ex.: entre as 22h30 e 23h30), que permita 8 horas de sono antes de acordar.
  • Permitir variações aos fins de semana, mas não superiores a 1-2 horas – evitar o chamado “jet lag social”.

b) Reduzir ecrãs antes de dormir

  • Idealmente, sem telemóvel, tablet ou computador na hora antes de deitar.
  • Se possível, deixar o telemóvel a carregar fora do quarto.
  • Explicar ao jovem o impacto da luz azul e da hiperconectividade no sono – educar para a autonomia, em vez de proibir cegamente.

c) Ambiente de sono adequado

  • Quarto escuro (usar cortinas blackout se necessário).
  • Temperatura confortável e ruído mínimo.
  • Colchão adequado à idade e posição de dormir preferida.
  • Evitar fazer o quarto um centro de entretenimento (TV, consola, computador fixo…).

d) Evitar estimulantes

  • Reduzir ou abolir o consumo de café, chá preto, bebidas energéticas ou chocolate à noite.
  • Também o uso de nicotina e álcool, ainda que pontual, interfere negativamente com o sono.

e) Incluir momentos de relaxamento

  • Antes de dormir: leitura, banho quente, respiração profunda, música suave, escrita livre ou diário.
  • Ensinar o adolescente a "desligar a mente" progressivamente.

f) Evitar cochilos longos ao final do dia

  • Se houver muita sonolência, permitir uma sesta curta (20-30 minutos), nunca após as 17h.

g) Valorizar o sono como base para o sucesso

  • Mostrar que dormir bem melhora a memória, o foco, o humor… e até a pele!
  • Estimular a perceção de causa-efeito: “Dormiste pouco ontem, como te sentiste hoje?”
  • Envolver o jovem na criação do seu plano de sono.

Papel dos Pais: Limites com Compreensão

Apesar da maior autonomia, os adolescentes ainda precisam de apoio para criar bons hábitos:

  • Não rotular o jovem de “preguiçoso” se quiser dormir mais ao fim de semana – ele está a recuperar o sono perdido.
  • Estar atento a sinais de alerta: sonolência constante, mudanças de humor, insucesso escolar, isolamento.
  • Estabelecer limites coerentes com flexibilidade – por exemplo, regras para o uso de ecrãs, tempo de estudo, hora de deitar.
  • Ter conversas abertas sobre o impacto real do sono na vida quotidiana.

Quando procurar ajuda profissional?

Se, apesar de uma boa higiene do sono:

  • O adolescente demora sempre mais de 1-2 horas a adormecer;
  • Acorda exausto mesmo após dormir muitas horas;
  • Dorme bem nos fins de semana, mas não consegue dormir cedo durante a semana;
  • Manifesta irritabilidade extrema, tristeza persistente ou desmotivação escolar;

Pode haver um distúrbio do ritmo circadiano, insónia ou uma condição associada (depressão, ansiedade). Nestes casos, o apoio médico e psicológico é essencial.

Conclusão

A adolescência não é só um tempo de mudanças: é também uma oportunidade de criar hábitos duradouros. Dormir bem é uma ferramenta poderosa de autocuidado, saúde e rendimento. Cabe-nos a nós – pais, cuidadores, professores – trazer o sono de volta à agenda das prioridades adolescentes. Ajuda começa com o exemplo, continua com o diálogo e fortalece-se com empatia.

Como lidas com o sono aí em casa? O teu adolescente é do tipo “coruja” ou “cotovia”? Conta-nos nos comentários – todas as estratégias contam!

Autoria: Dr. Hélder Ferreira, Pediatra